Sábado, 26 de Novembro de 2016

As Eleições de 1969 e a oposição democrática em Vila Nova do Ceira

Na sequência do II Congresso Republicano de Aveiro a Oposição Democrática ao regime ditatorial de Salazar & Caetano decidiu concorrer às eleições à Assembleia Nacional de 1969.

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Folheto de divulgação do II Congresso Republicano (Arquivo Alfredo Baeta Garcia)

Apesar das divisões provocadas, em três círculos eleitorais, pelas listas da CEUD de Mário Soares, a oposição concorreu unida, no restante país, sob a sigla da CDE – Comissão Democrática Eleitoral.

A participação nas eleições implicava o risco de “legitimar” um ato eleitoral que se sabia, à partida, fraudulento e em que o regime utilizaria todas as armas:

- Censura nos jornais, já que o acesso à rádio e televisão estava interdito à oposição;

- Perseguição e prisão para quem distribuía propaganda eleitoral;

- Destruição da propaganda nas próprias tipografias;

- Proibição e interrupção de sessões de propaganda;

- Assalto das sedes de campanha;

- Manipulação do recenseamento eleitoral (apenas 19% da população);

- Dificuldade de acesso aos cadernos eleitorais o que impedia a distribuição das listas da oposição (o eleitor tinha que levar a lista em que ia votar, sendo o papel ligeiramente diferente pois o governo não fornecia o papel);

- Finalmente, a chapelada, nas mesas não fiscalizadas pela oposição democrática.

Eleições 69 - boletim de voto CDE.jpg

Lista B da oposição democrática no circulo eleitoral do distrito de Coimbra (Arquivo João Nogueira Garcia)

 

As eleições vieram, efetivamente, demonstrar a falsa abertura de Marcelo Caetano, mantendo-se todos os aspetos da máquina repressiva do regime sobre as mínimas tentativas dos democratas em evidenciar o seu apego à liberdade de expressão e reunião.

No Concelho de Góis a Oposição estava reduzida a um punhado de irredutíveis gauleses, digo, democratas varzeenses, que possuidores de uma poção baseada nos valores da liberdade, democracia e solidariedade, não dava tréguas ao regime. O meu pai, João Nogueira Garcia, participou ativamente na campanha assumindo a liderança da estrutura local dos varzeenses democratas e fazendo o elo de ligação com as estruturas de Coimbra e Arganil (Dr. Fernando Vale).

Eleições 69 006.jpg

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Convite para a reunião da Comissão Distrital (arquivo João Nogueira Garcia)

            

Eleições 69 007.jpgEleições 69 009.jpg

Convite (arquivo João Nogueira Garcia) e imagem (Fernando Marques, Imagoteca Municipal de Coimbra) da sessão de propaganda no Teatro Avenida

 

 

Eleições 69 003 A.jpgCDE 69 001.jpg

Convite (arquivo João Nogueira Garcia) e imagem (Fernando Marques, Imagoteca Municipal de Coimbra) da conferência de imprensa da oposição

 

Infelizmente no restante concelho de Góis não era possível encontrar quem estivesse disponível para dar a cara pelos valores democráticos (como prova a troca de correspondência entre o meu pai, o dr. Fernando Vale e o Sr. Fernando Carneiro). Depois do 25 de Abril os alfaiates de Góis tiveram muito “trabalho” pois houve muitas “casacas” viradas!

 

Carta Fernando Vale 001.jpgCarta Fernando Vale 002.jpg

Carta de Fernando Vale a João Nogueira Garcia sugerindo o nome de Fernando Carneiro, a residir em Lisboa, como “estando disposto a colaborar”.

Eleições 69 001.jpg

Carta de João Garcia a Fernando Carneiro a pedir o seu contributo “dada a dificuldade em conseguir os indivíduos dispostos a colaborar” de modo a “arranjarem-se duas ou três pessoas (em Góis) para constituirmos a Comissão Concelhia” (arquivo João Nogueira Garcia).

Houve um intenso trabalho de campanha pois, além de se fazer chegar a mensagem aos eleitores, era, também, necessário fazer chegar as listas para a votação. Lembro-me que, na altura, com 12 anos, ajudei a colar muitos selos nos envelopes a enviar as listas. A votação decorreu com os atropelos do costume: A mesa da secção de voto era constituída, apenas, por afetos ao regime, houve o arrebanhar dos votantes por parte dos apaniguados da ditadura, a tentativa de troca de votos à entrada da secção e a colocação estratégica da Lusitaninha, ao fundo do ramal, a pedir para ver a lista que as pessoas levavam para o local de voto, na escola primária. Quando necessário, instigava à troca pela da União Nacional. Mas, como houve fiscalização, não foi permitida a chapelada. À tarde passaram pela Várzea alguns candidatos da oposição (recordo-me do Dr. Orlando Carvalho) e, também a nata dos serventuários do regime da sede do concelho, os quais foram “corridos” com um discurso inflamado da minha tia-avó Marquinhas.

Contados os votos verificaram-se 207 na lista A (União Nacional) e 99 votos na lista B (CDE). Uma enorme votação na oposição tendo em conta todos os atropelos cometidos pelo regime e, em especial, a restante votação no concelho de Góis. Saliente-se que, em todo o município goiense, houve 103 votos na oposição dos quais 99 foram na freguesia de Vila Nova do Ceira!!!.

Registe-se que na sede do concelho e nas outras três freguesias não houve qualquer fiscalização do ato eleitoral.

Eleições 69 - certidão.jpg

Certidão da assembleia de voto de Vila Nova do Ceira (arquivo Alfredo Baeta Garcia)

 

Texto elaborado por João Luís Matos Nogueira Garcia a partir de documentos dos arquivos pessoais de Alfredo Baeta Garcia e João Nogueira Garcia e alguma (pouca) memória desse tempo.

publicado por Quimbanze às 08:14

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Sábado, 4 de Abril de 2009

A GUERRA - 1961 - QUITEXE

 

Estamos metidos num Gueto
Mesmo à beira do barranco
Mata-se o Branco por ser Branco
E o Preto só por ser Preto
 
A Guerra tudo destrói
E com a sua crueldade
É uma chaga que dói
N a vida da humanidade
 
O Homem fica demente
Perde o uso da razão
Deixa mesmo de ser gente
Vira abutre ou gavião
 
No horror da luta armada
Jaz no chão uma Criança
Desventrada à catanada
 
Ó meu Deus, como consentes
Tanto ódio acumulado
Tanta morte de inocentes
Tanto sangue derramado
publicado por Quimbanze às 22:27

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Sábado, 11 de Agosto de 2007

O TERRORISMO

É a resposta brutal

A todas as injustiças

A todo o mal social

 

Terrorista Guerrilheiro

Condenado, perseguido

É um homem destemido

Que não luta por dinheiro

 

Em vida dá o que tem

Dá o bem e faz o mal

Quando procura afinal

Que esse mal seja um bem

 

Na hora da Libertação

Já não é mais terrorista

É o herói da Nação

O seu maior Estadista

 

E é nesta contradição

Que não é racional

Que se procura a razão

que há entre o bem e o mal

publicado por Quimbanze às 08:38

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Domingo, 10 de Junho de 2007

EM MEMÓRIA AOS VELHOS DO QUITEXE (todos meus amigos)

 

 

 

 

Velho, velho, Maculundo

De tão alva carapinha

Tens a verdade do Mundo

Que ninguém mais adivinha

 

E quando um dia

Descer à cova

Este velho que foi justo

Que na vida até foi Soba

A mando do Muniputo

Ficará dele uma história

Por sinal bem aflita

Levou com a palmatória

Do cipaio e do capita

 

Humilhado e surrado

Este homem resoluto

Em vida tão mal tratado

A mando do Muniputo

publicado por Quimbanze às 23:50

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Terça-feira, 29 de Maio de 2007

RECORDAÇÕES

Acordei já não dormi

Pus-me então a recordar

O que a saudade faz lembrar

Do tempo que já vivi

 

Neste mundo que rebola

Que gira sempre, sem findar

Recordei terras de Angola

Onde um dia fui parar

 

Nada aqui é igual

Do que é em Portugal

Tudo é diferente

Os costumes e a gente

 

São diferentes no sorrir

E no jeito de vestir

Na maneira de tratar

E na forma de falar

 

Quando aqui desembarquei

Tinha um desejo muito meu

Ser patrão sempre sonhei!

Vejam só, o que então aconteceu:

 

Como numa sentença lida,

Eu fui logo promovido

Na hierarquia da vida.

Não me senti ofendido

Mas fiquei muito surpreso,

Com tamanha distinção,

Eu que sempre fui um teso

A ser chamado de patrão

 

Mas é já uma tradição

É o trato desta gente

Aqui todo o branco é patrão

Mesmo que seja servente

publicado por Quimbanze às 21:34

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Domingo, 27 de Maio de 2007

Homenagem

       

        João Nogueira Garcia foi, sem dúvida, um grande varzeense, com um carinho muito especial pela terra adoptiva, o Quitexe. Sempre viveu intensamente tudo o que dizia respeito a estas duas localidades. Tudo o empolgava, como se de um legado pessoal se tratasse. Porque a Várzea (Vila Nova do Ceira) era a sua terra. Aí nasceu,em 1926, estudou e cresceu até que, aos treze anos, ainda menino da sua mãe, foi para Lisboa aprender o ofício de caixeiro. O miúdo, franzino, viu-se, de repente, feito homem na grande urbe, longe dos carinhos maternos. Subiu todos os degraus da profissão e em 1947, com 21 anos, rumou a Angola, no porão de um navio, em busca da terra prometida. Rapidamente a sua experiência no comércio lhe permitiu construir a sua própria casa comercial no posto administrativo do Quitexe, a terceira a ser edificada no local.

        Casou em 1951 com Maria Aline que o acompanhou nas aventuras angolanas e ao longo da vida. O bom relacionamento e o respeito que nutria pelos povos desta região angolana foram fundamentais na expansão das suas actividades. Já em colaboração com o seu irmão Alfredo foi também agricultor de café e industrial. No Quitexe, que rapidamente cresceu e se tornou vila, nasceram os seus filhos. Envolvido na barbárie que toldou os espíritos de portugueses e angolanos em Março de 61, soube afirmar o seu carácter no respeito pela dignidade humana, contra a violência, a vingança e o terror. Deixou-nos o relato desses dias negros no repositório de memórias que é o livro “Quitexe 61 – Uma Tragédia Anunciada”.

        De regresso à sua terra, é aqui que vai refazer a sua vida e empenhar a sua capacidade empreendedora.

        Foi com enorme prazer que o acompanhei, desde miúdo, nesses seus múltiplos empenhos., Em 1964 fundou a Empresa Cerâmica da Várzea, fomentando a criação de emprego e a dinamização do comércio e indústria na sua terra.

        Dedicado Varzeense foi um abnegado impulsionador, fundador e dirigente da Cooperativa Silvo-Agro-Pecuária de Vila Nova do Ceira e esteve na vanguarda do ressurgimento da Filarmónica Varzeense.

        Lutador pela liberdade, contra a ditadura salazarista, participou activamente na oposição democrática, nomeadamente nas campanhas eleitorais de Humberto Delgado, em Angola, e da CDE em 69.

 

        Não esqueço, como nas eleições de 69, aos 12 anos, ajudei a colar selos nos envelopes que levavam aos eleitores os boletins de voto da Oposição Democrática. Naquele tempo os eleitores tinham que ser portadores do boletim de voto! Eram tempos negros em que a opressão era a lei.

         Foi de uma geração em que, para se ser político interveniente, fora da corte salazarista da União Nacional, era necessário muita coragem, determinação e, acima de tudo, amor à causa da liberdade e desprendimento de valores materiais. Talvez por isso, foi crescendo a sua desilusão com esta sociedade em que o dinheiro é cada vez mais rei e os princípios, as amizades e os compromissos são espezinhados na voragem da ascensão rápida a cargos e honrarias.

        De facto, a sua intervenção não era marcada apenas pelo obreirismo, esgotando aí a sua realização pessoal. Pelo contrário, visava objectivos políticos bem determinados e balizados. E um deles era a esperança que depositava no cooperativismo, como expressão da solidariedade social, sem fins lucrativos, e a negação da exploração humana. Era nestes ideais que acreditava e, por isso, era determinado na sua defesa o que lhe acarretou incompreensões, desapontamentos e até ingratidão.

        Diria, em síntese, que foi um Homem que não se limitou a plantar uma árvore, mas uma floresta inteira;

        Não se limitou a escrever um livro, escreveu muito mais do que apenas as palavras: redigiu um testemunho vivo de que os valores da dignidade, da exaltação da vida, da amizade e da solidariedade são universais, eternos e compensadores;

        Não se limitou a ter filhos, antes cultivou o sentido da família como ponto central de afectos, união, amizades e cumplicidades.

        Ao meu Pai, o meu obrigado!

publicado por Quimbanze às 15:50

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